Pular para o conteúdo principal

Setembro amarelo - A prevenção do suicídio e o contexto oncológico





Setembro amarelo - A prevenção do Suicídio e o contexto oncológico

suicídio é considerado uma questão de saúde pública e isto, por si, justifica que este tema venha sendo cada vez mais chamado ao debate, no âmbito social e no âmbito da saúde. O mês de setembro é representativo nesse sentido, já que desde 2015 tem sido o mês que representa oficialmente o alerta amarelo, o alerta da prevenção ao suicídio. Atualmente o dia 10 de setembro é o dia internacional de prevenção ao suicídio.
Pensar o tema do suicídio não é tarefa das mais simples. É um tema permeado por estigmas originados de questões morais e religiosas, contudo, não debater este tema de forma direta e objetiva, impossibilitaria a prevenção e as ações de cuidado, totalmente necessárias e cada vez mais urgentes. É preciso, portanto, refletir sobre o suicídio de modo direto e com o envolvimento de profissionais de diversas áreas, considerando o caráter multifatorial deste fenômeno tão complexo.

No contexto oncológico, somada a todas as consequências psíquicas, físicas e sociais do adoecimento, a questão do risco de suicídio pode ser uma preocupação a mais, tanto dos familiares de quem está em tratamento, quanto da equipe de saúde. O impacto do diagnóstico, o tratamento oncológico  e as consequências do adoecimento podem fazer surgir no paciente angústias emocionais avassaladoras. Muitas vezes, no momento imediato da notícia do câncer surge o fantasma da morte, o medo de morrer e, consequentemente, a necessidade da ressignificação da vida, do sentido individual do existir. Os sentimentos do adoecimento, das consequências deste e do tratamento podem ser devastadores para algumas pessoas. Em alguns casos o tratamento não tem o resultado esperado, em outros há a rotina do sofrimento, da dor física, da dependência e da perda de funcionalidade, o que pode levar à tristeza profunda, à depressão e mesmo ao sentimento de perda de sentido de vida. Em situações como estas o paciente em tratamento pode  manifestar ideias de morte, pode inclusive, verbalizar o desejo de morrer, o que assusta familiares e equipe de cuidados. Quando isso ocorre é imprescindível a avaliação detalhada do risco (realizada por psicólogo), com vistas a distinguir o que poderia ser uma ideação suicida de uma manifestação de cansaço psíquico, uma angústia decorrente do adoecimento. Nesse sentido, tanto em casos nos quais o paciente verbaliza desejo de morrer por estar cansado do sofrimento de estar adoecido, quanto nos casos em que há de fato a ideação e/ou planejamento suicida, é imprescindível o acolhimento do sofrimento, acompanhamento psicológico e se necessário encaminhamento psiquiátrico.  Ainda que não haja risco iminente de suicídio, é preciso dar destino às angústias do adoecido, no sentido de subsidiar ao máximo as condições para sua qualidade de vida.  Não seria justo ou adequado pressupor que o paciente está querendo “chamar a atenção” se este disser frases como: “prefiro morrer”, “não aguento mais” etc. Isto porque mesmo que o paciente esteja querendo “chamar nossa atenção” ele está nos comunicando algo importante; seu sofrimento. E para este sofrimento, seja qual for sua origem, é que devemos nos voltar com ações de acolhimento e cuidado. E, além disso, em todos os casos, tanto nos de risco confirmado de suicídio quanto nas manifestações decorrentes do tratamento oncológico, pode ser mais adequado pecar pelo excesso; de cuidado.

Artigo escrito a convite da equipe do Enfrente - Instituto de Psico-Oncologia
Publicado também em http://enfrente.com.br/?p=1269

(Flávia Andrade, Psicóloga Clínica e Hospitalar, Especialista em Psico-Oncologia e Prevenção do Suicídio. Mestranda em Filosofia com o tema “O suicídio segundo Michel Foucault”)

Se precisar de ajuda ligue 188 (CVV – Centro de Valorização da Vida, ligação gratuita em todo o território nacional)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Precisamos falar sobre Suicídio (suas estatísticas) e sobre adolescência

Precisamos falar sobre Suicídio (suas estatísticas) e sobre adolescência As recentes notícias do Suicídio de adolescentes em colégios tradicionais de São Paulo deixaram a todos absolutamente perplexos. É estarrecedor e muitas vezes dolorido falar sobre esse assunto e mais ainda quando de tratam de jovens. Cabem antes então, algumas contextualizações. O  tema do Suicídio vem sendo debatido com maior destaque nos últimos anos, especialmente após o início da campanha "Setembro Amarelo", a qual é parte de um amplo e necessário esforço no sentido de prevenção. Suicídio é hoje uma questão de saúde pública; discutido na comunidade médica, científica e no âmbito da Saúde em geral. A OMS divulga há anos um vasto material sobre o tema, com informações sobre conceitos e formas de lidar com a questão, em si, tão complexa. Suicídio é considerado por muitos um assunto tabu. É tema de reflexão e debate de sociólogos, médicos, psicólogos e outros profissionais que se debruçam sob...

Por que os adolescentes se automutilam?

Por que os adolescentes se automutilam? Essa parece ser uma das perguntas mais frequentes da atualidade, especialmente nos contextos familiar e escolar. Pais de adolescentes tem manifestado muita preocupação com o fato de estar aumentando consideravelmente a frequência de autolesões em jovens. Essa temática também é uma constante no contexto escolar, emergindo como uma das maiores preocupações dos educadores. Frequentemente os temas da automutilação, das tentativas de suicídio e do suicídio são tratados e discutidos por profissionais da saúde mental, mas esses fenômenos não devem ser exclusivamente pensados nesse contexto. Isso porque são fenômenos que ocorrem e são motivados por múltiplas causas, humanas, existenciais e pela interação de fatores individuais e sociais. Na medida em que o individual é coletivo, já que construímos nossas identidades e nos integramos psiquicamente enquanto sujeitos, na relação com o outro, com o coletivo é preciso situar a ocorrência de atos...

Workshop Avaliação de Risco de Suicídio

 Ministro Workshop sobre Prevenção do Suicídio e Avaliação de Risco desde 2017. É muito gratificante receber retorno positivo desse trabalho. Recebi nas últimas turmas feedbacks muito positivos e notícias de que o curso instrumentaliza os profissionais para lidar com essa demanda. Haverá mais uma turma do Workshop Avaliação de Risco de Suicídio em junho. Veja informações no folder. Há tempo de garantir sua vaga. O curso é recomendado para profissionais de saúde, estudantes e educadores. (Flávia Andrade Almeida, psicóloga, administradora da pág Psicologia e Prevenção do Suicídio). 11 97046-7173 . #curso #suicidio #saudemental #prevencao #psicologiaclinica #psicanalise #foucault #winnicott #freud